❝ Mãe, me empresta o carro para eu dar uma volta? Eu sei que ainda não tirei a carta de motorista, mas vê só como eu cresci. Já tenho de fazer a barba duas vezes por semana. Tenho cara de gente adulta. Mãe, a senhora viu meu isqueiro? Eu só quero dar uma volta por aí, estacionar em frente ao pequeno cristo redentor da nossa pequena cidade. Sozinho. Fumando. Do lado de fora do carro, porque a senhora não gosta do cheiro, mas mesmo assim se acostumou a me beijar a testa de manhã quando eu apanho o primeiro cigarro. “Bom dia, meu filho”. Bom dia, minha mãe. A senhora viu como eu cresci, mãe? Meus ombros estão largos, embora minhas mãos continuem bem pequenas. Tenho mãos de criança, mãe, mas sou crescido, sim. Minha dificuldade é só em segurar as coisas que as pessoas grandes seguram, mas minhas mãos se firmam no volante, mãe. A senhora aprendeu a dirigir com treze, não foi? Eu já tenho dezoito. Veja só, mãe, já tenho dezoito! Já posso ser preso. Já posso comprar minha própria bebida, ver filme pornô, entrar em bares. Eu tenho idade para isso, mãe. O que eu não tenho é vontade. Porque, embora eu tenha crescido, minhas vontades permaneceram pequenas. Eu gosto de brincar com os cachorros, de assistir desenho animado, tomar leite achocolatado e comer salgadinhos. O que mudou foi o cheiro de cigarro e a vontade de andar de carro, mãe. E eu só quero que a senhora me empreste por umas duas horas. Não preciso de mais. Só preciso de duas horas para perceber que eu cresci. Eu cresci, mãe. Tenho vontade de correr para qualquer lugar sempre que penso que cresci demais. E se eu fizer o que o resto dos adultos fazem, mãe? E se eu me tornar alguém tão forte quanto a senhora? E se eu perder a fé, mãe? E se eu perder a fé nas pessoas? A senhora sabe que eu sempre fui um pouco só, mas não é por maldade. É por curiosidade. Lembra quando a senhora era menina e ficava atrás das árvores vendo as carroças passar? Então, mãe, eu me escondo atrás desse corpo crescido para ver os adultos conversando na mesa. Para rir dos assuntos que eu não sei. Eu não sei ser gente grande, mãe. Mas eu sei dirigir. E isso me faz ser gente grande, não faz? Eu só preciso de duas horas. Eu juro, mãe. Duas horas, e eu volto com o cabelo cortado, e não deixo a senhora ver o carrinho que eu sempre guardo dentro do bolso.
— Neemias Melo